Destaque

NÓS, O POVO.

 

 

“Todo o poder emana do povo”. Confesso jamais ter compreendido a frase primeira da nossa Constituição. Tudo o que vi, desde sua promulgação e até há pouco, não passava de conluios envolvendo bancos, grandes corporações e partidos políticos; de coligações partidárias eleitoreiras, pagas com cargos de confiança; de leis aprovadas a despeito da vontade popular; do Poder Legislativo comprado pelo Executivo sob a vista grossa do Judiciário, e da imprensa endossando o circo todo.

De repente, um parlamentar, inicialmente tímido, passou a atirar pedregulhos no chamado estamento burocrático. Mesmo sozinho, com brio e coragem peitava o sistema. Coincidentemente, as redes sociais atingiam o apogeu midiático. Postava-se e compartilhava-se de tudo: culinária a pornografia, política a entretenimento, filosofia a moda. Na época ainda não havia limitação no alcance das redes.

Aí nasceu Jair Bolsonaro, apelidado de “mito” pelos, cada vez mais numerosos, admiradores. Irreverente, acabou classificado como polêmico pelos colegas e pelos meios de comunicação. O mito não tinha papas na língua. Virou meme, super-herói, personagem de quadrinhos, tudo oriundo de uma mídia até então desconhecida e desprezada, composta por perfis pessoais e pequenas fanpages como a nossa Rua Direita.

Como todo outsider, Bolsonaro dava um tapa e tomava dez. Comprou briga com o poderoso governo socialista do PT, com os movimentos pró-aborto, os apologistas das drogas, os ativistas pró-desarmamento, os professores de esquerda. Ganhou, consequentemente, as pechas de machista, misógino, fascista, racista. O Stablishment reagia. Bolsonaro contra-atacava e crescia.

Comentários já pediam “Bolsonaro presidente”. Comentários de gente comum, pessoas como eu e você que, de início, a ordem ideológica expôs ao ridículo. A ideia, no entanto, ganhou corpo. Referências a ele ganharam maior alcance até atingir o topo das mais comentadas no Facebook, Twitter e afins. Criou-se a frase “é melhor Jair se acostumando”, de autoria desconhecida, como forma de provocação àqueles que têm rabo preso com o sistema.

A essa altura, o parlamentar já causava furor em cada aeroporto a que chegava nos 26 estados da Federação. Não se tratava de propaganda política artificialmente montada em estúdio, em que o candidato, carregado pelo povo, acena sorrindo. Aquilo era real. Bolsonaro é real!

Percebendo a curva ascendente do deputado, o sistema decidiu mudar a estratégia. Colocou-o na mídia convencional. Queria pô-lo para falar. Quem sabe assim ele assustaria as pessoas?

Erro crasso! O povo gostou! Pudera: falavam a mesma língua. Com frases fortes, ia ganhando corações e mentes. E não, não era como Lula. Lula é cria de marqueteiros. Comunica-se de maneira afetada, dizendo o que o povo quer ouvir. Bolsonaro não fala o que o povo quer escutar. Bolsonaro é o que o povo quer.

Enquanto o PT e correligionários apoiavam-se em militância paga, partidários do “mito” tiravam dinheiro dos próprios bolsos, confeccionavam camisas, criavam adesivos, erguiam outdoors. Enquanto terroristas do MST e desocupados da UNE gritavam “Lula guerreiro do povo brasileiro”, o verdadeiro povo bradava “eu vim de graça”. Bolsonaro é um fenômeno genuinamente popular.

Em quarenta e cinco anos de vida e dez como articulista político, nunca vi nada parecido. O candidato, que não compõe grandes coligações partidárias, que tem pouquíssimo tempo de televisão, que dispensou, por princípios, o fundo eleitoral e recusou, também por princípios, vultosas somas das mãos de empresários, que é crucificado pela imprensa e repelido pelos partidos políticos, mesmo assim, lidera as pesquisas.

O mito desabrocha do povo. Ele não é um político. Nem mesmo fala como tal. Bolsonaro é o médico, é o policial, é o gari, a cabeleireira, o advogado, o militar, o engenheiro, o mestre de obras, a bailarina, o futebolista, os bêbados do centro da cidade e os ascetas da igreja, é o pai, é a mãe, é o filho, o conselho dos avós e o respeito dos netos, é o miserável das palafitas e o pequeno empresário de classe média, é o pastor evangélico e o roqueiro dos anos 80. Todos juntos. A direita une o que a esquerda segregou. Devemos isso a Jair Bolsonaro.

Agora compreendo: sim, o poder emana do povo. Mas o povo não é um punhado de militantes, correligionários e bajuladores de casaca, pagos conforme a estirpe. O povo somos nós, os brasileiros.

Em cada metro quadrado deste solo existe alguém a enaltecer Jair Bolsonaro, em cada cozinha, em cada praia, em cada centro de compras, em cada lar, em cada hospital, em cada campo de futebol, em cada empresa, em cada favela, em cada canto desta imensa nação haverá sempre alguém disposto a defendê-lo de acusações infundadas, de alcunhas covardes, de rótulos absurdos, de arguições capciosas, de jogos de retórica, de sofismas de maldade, em cada igreja, em cada bar, em cada centilitro de oceano haverá um brasileiro disposto a brigar por ele, porque ele emana de nós. Nós, o povo.  Deus salve o mito!

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

 

 

SERÁ PRECISO DERRAMAR SANGUE DE INOCENTES?

IMG_0040Chamei a próxima cliente reparando na singularidade da sua graça: nome inglês com sobrenome castelhano.

Entrou uma jovem mestiça de uns trinta anos, morena, tez com traços africanos mas com cabelos negros e lisos de ameríndia. A estatura mediana, corrigida pelo salto alto, realçava-lhe as curvas típicas da raça negra. Belíssima.
__Bom dia. Saudei-a.
__Bom dia. Respondeu com o sotaque hispânico que me chamou a atenção.
Solicitei que entrasse no banheiro e se trocasse para a ultrassonografia ginecológica. Fê-lo prontamente e logo deitou-se à maca.
Dei início ao exame, procurando puxar assunto para quebrar o gelo, como de praxe.
__A senhora vem de onde?
__Venezuela.
__Ah! E trouxe alguma miss? Brinquei.
__Não. Respondeu rindo.__Estão todas lá.
__Teve uma que morreu, não foi?
__Morreu não. Mataram.
__Como anda a situação por lá?
__Horrível. Muito brava mesmo.
__O governo tem perseguido muita gente?
__Tem sim.
__Sei que a inflação anda astronômica. O dólar disparou. Ouço falar em escassez de produtos…
__Verdade. Mas a crise maior nem é econômica. É social. Nós médicos, por exemplo, em Caraças, não conseguimos trabalhar em paz. Estão sempre de olho. Se não atendermos bem… (Fez uma careta). Até cadáver temos de socorrer porque as paredes têm olhos e ouvidos. Por pequenos deslizes, levam-nos para uma favela qualquer e aí… Já viu.
__Ah! A senhora é médica? Resolveu fugir para cá?
__Sim. Mas, pelo que eu vejo, o Brasil está no mesmo caminho.
__Acha mesmo? Perguntei já meio que concordando com ela.
__Tenho certeza. Na Venezuela foi igualzinho. Muita gente duvidava de que os socialistas tomariam o país. Começou como aqui, com um programa semelhante ao bolsa-família, depois desarmamento da população civil, depois um programa de importação de médicos cubanos, isso tudo acrescido de casos e mais casos de corrupção política.
__Hum…
__Nas eleições acontecia a mesma coisa: os vermelhos sempre ganhavam por 51% a 49% dos votos. Idêntico ao último pleito no Brasil.
__Acha que houve fraude?
__Acho nada. Não há mais dúvidas quanto a fraude nas eleições.
__Na verdade, Brasil, Venezuela, Bolívia e Equador seguem a cartilha do Foro de São Paulo.
Achei que ela não saberia do que se tratava, mas para minha surpresa ela respondeu:
__Exatamente. O Foro foi fundado por Fidel Castro e Lula, com participação fundamental do nosso Hugo Chávez. É o Foro de São Paulo que comanda tudo o que está acontecendo nesses países. E não se engane não: na Venezuela havia um clima assim como está hoje no Brasil: muita gente duvidando do poder socialista. Foi muito rápido. Questão de dois anos e deu no que deu.
__Mas aqui nós não iremos permitir.
Ela riu ironicamente e continuou:
__Se este governo não cair agora, pode esperar pelo pior. A bomba socialista estoura de repente.
__Nem me fale. Dá até medo. Acha que a pobreza aumentou ou diminuiu na Venezuela?
__Para os pobres acho que piorou. Para classe média ficou impraticável. Estão todos deixando o país. Não tem como ficar lá mais.
__Isso é muito ruim.
__Demais.
__Os impostos aumentaram muito, não é?
__Muito. Aqui também estão aumentando, viu? Exatamente igual ao que foi lá. Fico impressionada de ver a semelhança. Mas os brasileiros parecem hipnotizados, assim como estávamos nós há quatro ou cinco anos. Incrível! Estive lá recentemente. Queria ficar um mês com a minha família. Não consegui passar nem uma semana.
__Por quê?
__Muito difícil viver lá. Violência demais. Impossível sair de casa.
__Entendo.
__E é incrível. Em todo lugar na Venezuela só se fala em política. Exatamente como aqui nos últimos dias.
__E nada de o Maduro apodrecer. Brinquei.
__Podre ele já é. Só não cai. Pensa que o governo do PT vai cair também? Doce ilusão! Na Venezuela nós paramos o país! Greve geral por sessenta e poucos dias. População tomando as ruas. Quem sofreu? O povo! O governo não arredou pé. Vocês não acreditam, mas eu estou vendo aqui a reprise do filme a que assisti no meu país. Não tem o que tirar nem pôr.
Deu-se uma pausa. Medi o útero e fotografei. Depois continuei.
__Mas então, creio que a senhora fugiu para o país errado.
__Parece que sim. Respondeu meio enternecida.
Dei o diagnóstico. Ela agradeceu, depois entrou no banheiro, trocou-se e saiu sem demora. Desejei-lhe boa sorte.
__Boa sorte para nós, respondeu. Iremos precisar muito. Esses governos não caem assim não. Não adianta povo na rua, greve geral, processo na justiça, nada disso. Eu vim para o Brasil fugindo do socialismo e estou vendo vocês trilharem o mesmo caminho pelo qual passamos.
__Imagino.
__Não tem jeito. Para nos livrarmos dessa gente, terá de ser derramado sangue. E não é sangue de Maduro nem de Lula não. É sangue de gente inocente.
__Espero que não. E oro por isso.
__Eu já orei muito. Cansei.
Esbocei expressão de desesperança. Ela retribuiu da mesma forma.
__Espero vê-la de novo.
__Igualmente.
Ela atravessou a porta e desapareceu. Senti um peso mas costas, um misto de pena dela e de nós todos. Sem outra opção, chamei o próximo cliente.

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

A SAÚDE NA UTI

IMG_0016Recebi tantas vezes a alcunha de pessimista que até me acostumei. Esses governos de esquerda deixam-me assim, fazer o quê? Infelizmente há tragédias anunciadas e o que se percebe na saúde brasileira é uma delas.

Que o governo do PT contraiu mais empréstimos do que poderia pagar, não é novidade. Há treze anos Lula e Dilma distribuíram benesses de toda sorte, que favoreceram desde gente muito pobre até grandes empresários. Dada a impossibilidade de pagar a conta, pedalaram até o limite.

Só que o limite chegou. O governo federal não tem mais verba para repassar aos estados e municípios. A saúde pública sentiu o baque. Só no ano passado, a União deixou de repassar 2,2 bilhões do Fundo Nacional de Saúde às prefeituras e estados.

De 2010 a 2015, o SUS desativou 13 mil leitos hospitalares. Cerca de 12 mil cirurgias foram suspensas em Minas Gerais no ano passado. No Paraná, no mesmo ano, cancelaram-se todos os mutirões de cirurgias eletivas. Em Manaus, três mil médicos da rede pública não recebem salários há três meses (situações semelhantes evidenciam-se n’outras localidades). Extinguiram-se os plantões de ortopedia nos pronto-atendimentos da capital amazonense e as cooperativas, que prestam serviços para o estado, reduziram os quadros em 10%. Há menos médicos, enfermeiros e técnicos trabalhando na rede pública.

O Rio de Janeiro, então, viveu há pouco a pior crise na saúde pública de sua história. O Hospital Getúlio Vargas fechou as portas. Muitas emergências fizeram o mesmo por falta de recursos. Milhares de fluminenses ou ficaram sem atendimento, ou tiveram de enfrentar filas quilométricas nos serviços que ainda funcionavam.

Não para por aí. Após um ano do “Mais Médicos”, quase a metade dos municípios contemplados pelo programa tinha quantidade menor de médicos do que quando chegaram os bolsistas, segundo o Tribunal de Contas da União. A explicação é simples: as prefeituras demitiram seus profissionais e empurraram a responsabilidade para o governo federal. Resultado (tremenda ironia!): menos médicos.

Até aí, nada de muito novo. A saúde pública no Brasil sempre foi sofrível. Resta, para os que podem, refugiar-se em um plano de saúde. Só que, com o encolhimento da indústria e o aumento do desemprego, os convênios passaram a perder clientes. Meio milhão de brasileiros ficou sem plano de saúde em 2015. Como a demanda diminuiu, os convênios passaram a descredenciar em massa profissionais e clínicas.

Seguia-se a lógica do mercado até aparecer a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) com novas regulamentações, obrigando os convênios a substituir clínicas e hospitais descredenciados por outros equivalentes. Simples, não é mesmo? Basta uma lei. Sem poder “demitir”, restou aos planos de saúde aumentar preços. Ato continuo, a ANS chegou para simplificar as coisas novamente, com uma conduta socialista a la Hugo Chávez: fixou reajuste máximo anual aos planos de saúde individuais em uma taxa de 13,55%

Ora, qualquer um que conheça rudimentos de economia sabe que, ao se estipular um preço máximo, cria-se escassez. Com a saúde não podia ser diferente. Os planos tornam-se cada vez mais raros e mais caros, principalmente os individuais. Já os “coletivos” (aqueles oferecidos pelas empresas a funcionários e dependentes) não sofreram tanto, porque têm reajustes negociados bilateralmente, por meio de contrato, sem passar pelo regimento da ANS. Não é por acaso que, dos 50 milhões de beneficiários de planos de saúde, apenas 10 milhões sejam individuais.

Mas a indústria, como dissemos, também vem contraindo-se. Só em março perderam-se 118 mil vagas formais de emprego. A média de desemprego em 2015 foi de 8,5% e a previsão para 2016 é de 10%, segundo o PNAD/IBGE. Só em Manaus, cidade onde moro, mais de 15 mil vagas no Distrito Industrial viraram fumaça em 2015. Menos funcionários na indústria, menos usuários para os planos de saúde.

Triste realidade! Temos o segundo maior mercado de planos de saúde do mundo, mas não temos o segundo maior PIB. Conclusão: empresas e pessoas físicas não têm conseguido arcar com os custos cada vez mais altos dos convênios, por isso desistem de contratá-los. As prestadoras de saúde vêm falindo. Aconteceu, por exemplo, com a UNIMED paulistana.

Desenha-se a desgraça. Míngua a saúde privada. Quem não tem convênio vai para onde? Para o SUS. Mas… Opa! A rede pública, além de poucos recursos, teve os quadros reduzidos. Menos profissionais terão de assistir mais doentes com cada vez menos recursos. A não ser que tenhamos, por intervenção divina, uma epidemia de boa saúde neste país, prevejo um desastre sem precedentes. Deus nos proteja!

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

 

O MITO É O TUDO QUE É NADA

 

Hbolsonaro x maria do rosáriooje o Supremo Tribunal de Justiça condenou Jair Bolsonaro a indenizar a colega de parlamento Maria do Rosário em dez mil reais.

Segundo a relatora, Ministra Nancy Andrighi, “o ‘não merece ser estuprada’ constituiu expressão vil que menospreza de modo atroz a dignidade de qualquer mulher”.

O fato deu-se em 2003, quando o deputado respondia a entrevista sobre o estuprador e homicida Roberto Aparecido Alves Cardoso, vulgo Champinha, então com dezesseis anos.

Bolsonaro exigia pena mais severa ao criminoso quando, súbito, interrompeu-o Maria do Rosário, chamando-o de estuprador diante das câmeras.

O parlamentar acabou perdendo a cabeça, proferindo a famigerada frase “eu não te estupro porque você não merece” e provocando reação histérica em Maria do Rosário.

Até aí, nada de mais. Tratava-se de discussão tola. Já se viram parlamentares partirem até mesmo para as vias de fato dentro do plenário sem que houvesse sequer acionamento jurídico. Todavia, Maria do Rosário é mulher e, além de mulher, progressista.

Digo isso porque a legislação transforma, dia a dia, mulheres em seres sacrossantos e intocáveis, mesmo quando (pasmem!) defendem estupradores; mesmo quando invertem valores e imputam crime àquele que (pasmem de novo!), tenta defender a sociedade—principalmente as próprias mulheres—de tipos nefandos como Champinha.

Fora do microcosmo político, resta a população. A opinião dela se conhece bem: não se contentaria com a pena de três míseros anos na Fundação Casa. Viesse tal deputada ralhar com a maioria dos brasileiros naquele momento, talvez levasse um bofetão ou, no mínimo, uma descompostura. Mas há muito o poder não emana do povo.

Indigno-me com a sentença, porém não me admiro. Conhecemos bem a universidade que forma nossos juristas. Sabemos quais os meios de comunicação que os informam.

Há tempos as instituições de ensino vêm permeando-se a todo tipo de pensamento progressista parido nas bancadas da Escola de Frankfurt.

Portões escolares escancararam-se ao feminismo, ao movimento gay, à legalização das drogas e do aborto, ao coletivismo e outras linhas de raciocínio esquerdista inundadas pelo politicamente correto.

Desse ninho eclodem os ovos do sistema jurídico, dos meios de comunicação, dos partidos políticos. Daí nascem as leis; daí se julgam processos, daí se criam jurisprudências, daí se veiculam notícias. Por isso não me surpreendem condenação nem pena.

Também não lamento. Não se trata de tanto dinheiro, mas apenas do valor da honra de Maria Do Rosário: dez mil reais. Bolsonaro pode pagar.

Compadeço-me, sim, do povo. Coube a este a pena de engolir sapo ao ver penalizado aquele que chama de mito e em quem deposita a esperança (ingênua, admito) de dias de maior justiça.

Para o povo, o mito é tudo. Diante do estamento burocrático, no entanto, Bolsonaro não teve forças. Valeu a pena? Talvez. Diria o poeta que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

Nossa alma é grandiosa. Somos as mãos que trabalham, os olhos que choram, os lábios que rezam, as ventas que inspiram, a pele arde!

Somos nós, contudo, os vulneráveis, os indefesos, os difamados! Maria do Rosário nunca será estuprada, não porque não mereça, mas por ter o aparato estatal que a escolta. Estupradas serão nossas esposas, nossas mães, nossas filhas.

Diante de nós se posta o leviatã do estado, criado à nossa revelia; aquele que deveria proteger-nos e que, em vez disso, relega-nos à própria sorte. Contra ele somos poeira. Contra ele o mito é nada.

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

 

SOBRE FARDAS E GUARDA-PÓS

REVOLUÇÃOImagens do conflito entre professores e policiais no Paraná despertaram indignação de muitos. Poucos, no entanto, têm a sensatez de ater-se aos fatos, em vez de se deixarem levar por “slogans” midiáticos chapa-branca.

Para compreender o ocorrido precisa-se conhecer como atua o movimento revolucionário—este dragão de duas cabeças que confunde a opinião das pessoas, de eruditos a bebuns do bar da esquina.

Uma das características do movimento revolucionário é a capacidade de desencadear crises, pela distribuição incontida de créditos, para depois combatê-las. Coincidentemente é o que temos hoje no Brasil. Abusou-se das benesses, distribuíram-se empréstimos a juros módicos, via BNDES e financiamentos imobiliários. O governo endividou-se em nome da “justiça social” e, em nome dela, continuará endividando-se ‘ad libitum’.

Não precisava ser nenhum grande economista para perceber que a conta, mais cedo ou mais tarde, chegaria. Pois é! Chegou! Agora o governo tem de abusar de contabilidades criativas e pedaladas fiscais, tentando empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Com isso ganha tempo.

Já sentimos a recessão e sabemos quem arcará com o saldo negativo: o trabalhador. Aí se encaixam os professores do Paraná, assim como outros milhões de brasileiros que deverão abrir mão de direitos trabalhistas e sangrarão cada vez mais com impostos.

O dragão é sagaz. Gera crises, depois apresenta-se como solução através do mesmo mecanismo que as cria. Fomenta conflitos, depois os rechaça com violência. Não importa o resultado. Importa que movimento mantenha-se ativo. Ora joga de um lado, ora do outro, de forma que vença sempre, seja qual for o placar do jogo. Vende a falsa ideia de uma oposição atuante que, a bem da verdade, nada mais é do que uma de suas cabeças. Ambos—PT e PSDB—competem de forma real (admito!) mas pelo poder, não por diferenças ideológicas.

O incidente em Curitiba foi reflexo disso. O governo federal promove a instabilidade econômica e o modo como tenta contê-la desagrada os trabalhadores. A eles sobrou a dívida, o que os deixa cegos de indignação e, portanto, vulneráveis.

Quando encontraram (vejam só!) ativistas do próprio movimento revolucionário—pai da crise—, acabaram incitados a ir às ruas. Mas toparam, de um lado, com o governo Beto Richa na figura da PM; de outro, com a “oposição” paranaense na figura da petista Gleisi Hoffmann e de militantes da CUT e do PC do B com sangue nos olhos.

Armava-se o circo. “Black blocs” furaram o bloqueio. A PM reagiu. Gleisi, sobre o carro de som, deu voz de comando: não recuar. Resultado: mais de cem feridos entre professores, militantes e policiais. Mais professores do que militantes e policiais, diga-se de passagem.

Quem ganhou? O governo, que se fortalece acusando a “oposição” de violência e a “oposição”, que se beneficia acusando o governo de “mentor da crise”. Aos professores restou servir de massa de manobra ou, na linguagem revolucionária, de “idiotas-úteis”. Estes, como sempre, pagam o pato. Acabam feridos.

O movimento segue incólume. Nunca sangra, nunca inala gás lacrimogênio, nunca lhe inflamam os olhos sprays de pimenta. Usando a estratégia de “dividir para conquistar”, joga uns contra outros, fardas contra guarda-pós, brasileiros contra brasileiros. Estes sim saem machucados e, consequentemente, enfraquecidos. Perde o povo. Ganha a revolução.

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

A VOLTA DO “BEM AMADO”

 

Oo bem amado retorno do personagem Odorico Paraguaçu, o bem amado, não poderia ser mais oportuno. Lembram-se dele? O prefeito de Sucupira que queria construir um cemitério na cidade? Pois é. Reapareceu recentemente nos cinemas. Mesmo roteiro: concluiu a obra, inaugurou a necrópole. O problema veio depois, ao constatar que em Sucupira ninguém morria. Pobre Odorico! Viu-se obrigado a importar um candidato a cadáver. Só que os ares salutares da cidade acabaram curando o moribundo. Restou apelar: convocou um pistoleiro profissional. Deu-lhe a chave da cidade. Quem sabe aquele homem rude não mataria alguém? Mas o povo cordial acabou amolecendo o coração do Zeca Diabo. Sucupira acabou mesmo é com um cemitério sem defunto.

Andar pelas ruas de São Paulo, ultimamente, tem-me feito lembrar de Sucupira. A pedra no sapato de Hadadd, porém, são as ciclovias sem ciclistas. Isso mesmo. O Odorico Paraguaçu existe! Mas por que cargas d’água não há gente pedalando? Diz o petista que é devido à dificuldade dos brasileiros em abandonar a “cultura” do carro”. Eu só faço rir. É a piada do ano. Mas petista é assim: sempre aponta um culpado, desde que não seja ele nem a sua grei.

Convenhamos, Sr. Maldade: políticos no Brasil não pensam no Brasil. Pensam em votos. Por isso sempre colocam a carroça à frente dos burros. A chamada política “easy way” é a nossa cara.
Há tempos agimos assim. O país mecanizou e incrementou a agricultura, mas antes não se urbanizou adequadamente, de modo a absorver o êxodo rural. Hoje temos favelas. Depois industrializou-se sem antes se educar. Resultado: baixa produtividade e desemprego. Em seguida modernizou os parques industriais, informatizou-se, mas não especializou sua mão de obra. Hoje temos baixos salários e produtos caros, além de um setor terciario inflado. Todo mundo nas cidades. Planejamento urbano zero. Já viram, né?

Tem mais: optamos por distribuir riqueza sem antes criá-la. Transfere-se o que não se tem. O que não se tem, toma-se emprestado. O que se toma emprestado, tem-se que pagar mais tarde. Uma hora chega a conta!

Para completar, caracteriza-nos a “cultura do estado”. Espera-se tudo dele. Inflamos suas repartições, multiplicamos a quantidade e os valores dos holerites. É gente que não acaba mais no setor público. E ganhando bem! Em compensação, sobretaxamos o empreendedor. Torna-se cada vez mais difícil abrir negócios. É muito imposto para bancar um paquiderme de tais proporções.

Por isso a produção é pífia, puxando a arrecadação lá para baixo. De onde tirar dinheiro para ampliar a malha metroviária, investir em ônibus melhores, monotrilhos, trens? Só recorrendo aos bancos. Quando a fatura vier, sobram duas alternativas: imprimir dinheiro, gerando inflação ou aumentar juros e cobrar mais impostos. O governo tem optado pela segunda. Percebem o círculo vicioso?
Pois é bem esta a explicação para a ausência de ciclistas: a necessidade do carro (e não a “cultura” do carro como alega o prefeito). Abrir mão do automóvel em São Paulo significa tomar ônibus lotado e metrô que nem sempre chega aonde se precisa. Deslocar-se da Vila Maria ao Jabaquara de bicicleta fica difícil. Seria preciso de um sistema integrado como o de Amsterdam. Tem?

Mas falar em ciclofaixa virou ‘cult’. Soa bem. Parece inteligente. Uh-la-la! Pédalant à Paris’!
Choperias e bistrôs enchem-se de gente falando bonitinho. A mídia exalta. As universidades enaltecem. As câmaras votam a favor, entoando discursos inflamados. Essa gente, no entanto, acaba indo pedalar é em Champs Elyséés. Ninguém é doido de se arriscar nessas ruas, podendo ser esfaqueado por motivos fúteis, não é mesmo?

Mas a elite mídia-universidade-setor público-meio político dá rodopios de júbilo com medidas desse tipo, numa desconexão com a realidade que orça os limites suportáveis da hipocrisia. Trata-nos como se vivêssemos na Europa. Enquanto isso o povo segue trabalhando para sustentá-la, sofrendo em congestionamentos, parado em semáforos dando bandeira a assaltantes e agora (pior impossível!) esmagado entre ciclovia e faixa de ônibus urbano. No Brasil é assim: intelectuais debatem, Odoricos ficam ricos, Sucupira pira. No final, todos vão arejar em Paris. O povo fica. 

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

VOCÊ SABE O QUE É LIBERALISMO?

 

LIBERALISMOVocê sabe o que é liberalismo? Não?
Imagine que você pudesse escolher o quanto quer trabalhar. Se precisasse de mais dinheiro, trabalharia mais; se fosse do tipo que precisa de pouco para viver, trabalharia apenas um ou dois períodos na semana e o resto folgaria.

Agora imagine que cada um recebesse de acordo com o que produzisse. Quem produzisse mais, ganharia mais; quem produzisse menos, ganharia menos. Acha justo? Se sim, você é um liberal.

Suponhamos, por exemplo, que você não tivesse qualificação nenhuma. Quais seriam suas chances no mercado? Praticamente nulas, não é mesmo? Sobraria a você viver de biscate ou fazer bicos por aí (quando não se prostituir). Sabendo disso, você toparia trabalhar por um salário menor em vez encarar o fantasma do desemprego ou subempregar-se? Se escolheu a primeira opção, você é um liberal.

Surpreso? Sabia que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não permite que se receba menos, em caso de sub-qualificação, nem mais, em caso de maior eficiência? Sabia que jornadas superiores a 44 horas semanais são proibidas e que o máximo permitido são 2 horas-extras diárias?
Sabe o que isso significa? Que você não pode trabalhar mais, por exemplo, para comprar um carro novo ou uma casa. Para isso você precisa pedir dinheiro emprestado a um banco (a juros exorbitantes).

Significa, também, que você não pode trabalhar menos quando já estiver cansado e em fim de carreira ou quando simplesmente achar que precisa de menos dinheiro e mais lazer. Para isso você precisa aposentar-se e depender da boa vontade do estado em prover-lhe um salário digno (que raramente o é).

E se houvesse uma flexibilização? Seria bom ou ruim?Que tal perguntar à sua diarista? Pergunte o que ela prefere: trabalhar com carteira assinada, bater ponto, ter direito a férias, décimo-terceiro, abono salarial, seguro-desemprego ou atuar como autônoma, fixando o valor dos seus serviços e organizando os próprios horários? Em verdade, nem precisa. Sabemos que ela escolhe a segunda opção porque ganha mais e paga pouco ou nenhum imposto.

Por fim, imagine que os preços dos produtos fossem muito mais baratos no mercado. Tudo pela metade. Bom, né? Se a maioria adotasse o mesmo esquema da sua diarista, os encargos ao empregador e ao estado seriam menores, portanto a carga tributária e o custo da produção também seriam, resultando em produtos mais baratos.
Já pensou? Você escolheria o quanto e por quanto trabalhar, ganharia mais e gastaria menos. “Impossível!”, você deve estar pensando. Pois saiba que em países liberais funciona mais ou menos assim.

Ainda duvida? Pergunte agora ao seu médico. Médicos da iniciativa privada escolhem seus horários, optam por trabalhar mais quando precisam de mais dinheiro e menos quando não necessitam de tanto. Não têm todos esses “direitos” previstos na CLT, mas não trocam o esquema liberal por nenhum outro. Sabe por quê? Porque ganham melhor assim. Os mais qualificados cobram mais caro; recém-formados podem cobrar menos para poder competir.

Liberais encararam essa flexibilidade não como uma facilitação à exploração, mas como um direito do trabalhador.
E você, como pensa? 

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

A NOITE É UMA CRIANÇA

a noite é uma criança

Imagine que você e seus amigos resolveram dar uma festa inesquecível. No meio da noite, a banda atinge o ponto alto, gente badalando na pista, uísque, champanhe e caviar correndo soltos. De repente vocês descobrem que não têm dinheiro para as despesas. Que fossa, hein? O jeito é comer, beber e dançar tentando adiar ao máximo a chegada da conta. Algo familiar?

Nós últimos treze anos, o governo ofereceu crédito a Deus e o mundo, a juros módicos, visando aquecer a economia. A festa da bonança começou bombando: novos edifícios arranharam os céus, estudantes matricularam-se aos borbotões em faculdades particulares, empresas expandiram-se e outras abriram portas. Só que quando veio a fatura… Opa! Não havia dinheiro! E agora?

Diz-se que a crise é apenas política; com o “impeachment” de Dilma Rousseff, instantaneamente a economia pegará no tranco. Em verdade, a mente estatista do povo brasileiro é tão involuntária quanto respirar. Brasileiro não se enxerga longe das asas do estado. Se estuda, quer prestar concurso público; se é pobre, espera por socorro do governo; se é empresário, quer crédito fácil; se sonha com casa nova, pensa em financiamento da Caixa. E todos querem aposentar-se o mais cedo possível.

Eu me pergunto: como um país que pensa assim pode achar que a crise acabará num estalar de dedos? Basta Dilma renunciar e pronto: teremos crédito fácil novamente e assim retomaremos o caminho do crescimento. Bom, não?

Não mesmo! Enquanto não modificarmos o sistema em sua estrutura, jamais nos tornaremos país desenvolvido. Em 2014, por exemplo, concederam-se R$ 187,8 bilhões em crédito a juros baixos pelo BNDES, mais 13,75 bilhões pelo FIES (crédito universitário) e mais 140 bilhões pela Caixa Econômica (crédito imobiliário). Ah!–diriam–mas esses juros baixos têm respaldo na produção, certo?

Errado. Para se ter uma ideia, a População Economicamente Ativa gira em torno de 130 milhões. Desses, 11,1 milhões são funcionários públicos, sendo que 3390 recebem salários acima do teto (R$ 29.500,00) e 600 mil foram contratados sem concurso público (os chamados cargos comissionados). Um em cada dez brasileiros em idade de trabalhar é funcionário público. Fora os 20 milhões de aposentados.

Não acaba aí. Um em cada quatro brasileiros (quase 46 milhões) recebe bolsa-família. De cada 100 brasileiros em idade de trabalhar, apenas 53 trabalham, 3 procuram emprego e não encontram e 44 nem sequer procuram (dados do IBGE).
Para completar, ainda temos 600 mil trabalhadores encostados no INSS que podem ser reabilitados e não o são (dados do próprio INSS). Nove milhões de brasileiros recebem seguro-desemprego e acabam indo trabalhar na informalidade para não perder o benefício.

Em suma, temos 68,9 milhões de brasileiros que trabalham e 61,1 milhões que não. Dos que trabalham, 10% são funcionários públicos (6,89 milhões) e 600 mil estão encostados no INSS. No total são 68,6 milhões que, ou não trabalham, ou são servidores públicos.

A grosso modo, metade da população economicamente ativa brasileira sustenta a outra metade. Isso sem contar os 20 milhões de aposentados e outros 50 milhões que não compõem a população economicamente ativa. No total são 132 milhões de brasileiros mantidos por 68 milhões.

A festa de arromba, entretanto, tem um preço e imaginar que o setor público o pagará beira a loucura. O salário do servidor público não pode ser custeado pelos impostos descontados em suas próprias folhas. Daí a importância da iniciativa privada.
Se a indústria e o comércio encolhem e o estado infla, vai tudo por água abaixo.

Para haver crescimento na esfera privada, são necessários menos impostos, menos encargos trabalhistas e menos burocracia. Justamente o contrário do que temos. Não foi por acaso que a indústria encolheu 3,2% em 2014 e (pasme!) 8,3% em 2015. As vendas no comércio cresceram apenas 2,2% em 2014 e caíram 4,3% em 2015.

Economia fraca implica baixa arrecadação. Quanto maior o encolhimento, mais o contribuinte tem de sangrar. Por isso trabalhamos 5 meses do ano só para pagar impostos. 40% do PIB brasileiro é imposto! Com a retração de 3,8% da economia em 2015 (pior resultado desde 1990), o jeito é aumentar a carga tributária para manter a arrecadação. A festa não pode parar.

Por isso houve aumento do IOF, do IPI, dos combustíveis, da energia elétrica, das taxas sobre cosméticos, cervejas, refrigerantes e isotônicos. Mesmo assim a conta não fecha. Vem aí a nova CPMF.

Espanta-me o fato de tanta gente defender aumento de impostos. Dizem que todos têm de contribuir. Meu Deus do céu, onde vamos parar?!
Se se fala em enxugar a CLT, brasileiro tem até convulsão. “Como viver sem décimo-terceiro, abono salarial, auxílio isso, auxílio aquilo?”. Se se fala em diminuir créditos, causa-se enfarto em massa.

Mentalidade estatista não se muda da noite para o dia e é fácil saber por quê: há uma elite muito poderosa que se apoderou do estado. São os “donos do poder”. Ela manipula o meio político (e o compõe), transformando o povo em escravo do aparato que ele mesmo banca como contribuinte. Pior: essa elite apoderou-se também da mídia e da universidade, o que lhe confere a aptidão de incutir na cabeça das pessoas que não podem viver sem o socorro estatal.

É dessa elite a culpa pela nossa miséria. É ela a responsável pelo nosso atraso e não o que ela chama de elite: o médico, o engenheiro, o dentista, o pequeno comerciante, o gerente de banco, o advogado e essa gente toda que se desdobra do jeito que pode.

Perdoem-me pelo pessimismo, mas o Brasil não vai mudar com o “impeachment”. Se essa “fidalguia” não for expropriada do estado, será como a mosca da sopa: você mata uma, entra outra em seu lugar. Outra Dilma vem aí… E outra… E mais outra.

Marina Silva anda forte nas pesquisas. Quem declara voto nela? O próprio sujeito que trabalha cinco meses do ano para pagar impostos, que terá de se virar com a nova CPMF, que terá de apertar o cinto com as novas tarifas de energia e com o alto preço dos combustíveis. Ele mesmo quer que a festa entre madrugada adentro. Afinal, noite é uma criança.

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

ESTÁ RUIM? VOLTA PARA CASA!

Sabe por que os americanos construíram um país tão rico?  Não.  Não foi explorando outras nações. O segredo do sucesso deles encontra-se na mentalidade. Aprenderam cedo que riqueza não se partilha, cria-se. Por entender, de há muito, que dinheiro não dá em árvores, dedicam boa parte do tempo em tentar conquistá-lo. Time is money!

Em território ianque não há espaço para corpo mole. Quem não tem competência não se estabelece. Norte-americanos desconfiam do governo desde o tempo das treze colônias, portanto não se deixam levar pelo mito do almoço grátis. Ganha mais quem mais produz.

Não há decimo-terceiro, férias remuneradas, abono salarial, reajuste anual de salário e outras falsas mordomias. Também não existia sistema de saúde pública até há pouco tempo, quando Barack Hussein Obama criou o OBAMACARE, um germe do SUS americano. Escola pública existe, contudo eles sabem que nada vem de mão beijada; tudo tem um preço.

Já na América Latina, onde há mais de cinco séculos alternam-se governos populistas e socialistas, não se consegue deixar o engodo do sistema público, gratuito e de qualidade. Só não entendo como não se percebe a imbecilidade de tal raciocínio. De graça, nem injeção na testa!

O economista americano Milton Friedman resume bem como nos prejudica o modo paternalista de pensar. Há, segundo ele, quatro maneiras de se gastar dinheiro: quando gastamos nosso próprio dinheiro com nós mesmos, fazemos questão de preço baixo e alta qualidade; quando gastamos nosso dinheiro com outra pessoa, queremos preço baixo e não fazemos tanta questão de qualidade; quando gastamos o dinheiro de outra pessoa conosco, exigimos qualidade e não damos muita importância ao preço; por fim, quando gastamos dinheiro dos outros com os outros, aí não fazemos nem questão de qualidade, nem de preço. A última opção representa o governo.

Isto não entra na cabeça de latino-americano: sistema público é perdulário. Gasta muito para pouco retorno. Outra coisa que não se percebe em terras cucarachas:  o custo do sistema sai do nosso bolso.

No Brasil, quase 40% do PIB é imposto. Trabalham-se cinco meses do ano só para alimentar o leão. Devido à alta carga tributária, os impostos em “cascata” e o enorme custo dos “direitos” trabalhistas, o custo de vida encarece e a produção encolhe, resultando em baixos salários, subemprego e desemprego.

Só que, surpreendentemente, quanto mais gira a espiral socialista, mais se pede socorro ao estado, como se ele pudesse resolver o problema que ele mesmo cria. A América Latina cansa!

Talvez por isso as taxas de migração líquida nas terras da salsa e do samba variem sempre do zero ao negativo (mais gente saindo que entrando). A do Brasil em 2014 (último censo mundial) foi de -0,15 migrantes/1000 habitantes; a de Cuba, -3,61; a da Venezuela, zero (lembrando que o dado é de 2014, antes de a crise venezuelana estourar).

Já a taxa de migração líquida dos EUA nunca sai do positivo. Em 2014 atingiu 2,45 migrantes/1000 habitantes. Entra mais gente que sai na terra do Tio Sam.

Mas que tanto procura esse pessoal? De que foge? Com exceção dos refugiados de guerra, a maioria procura maiores salários, mais segurança e melhor qualidade de vida. Os Estados Unidos oferecem tudo isso. A América Latina não.

Quando chicanos avistam a Estátua da Liberdade pela primeira vez e gritam “América”, chegam dispostos a trabalhar para ganhar em dólares no mínimo três vezes mais do que recebiam em seus países de origem. E conseguem.

O juízo tortilla y frijoles, no entanto, não muda. Não demora a associarem-se a sindicatos, a gritar por mais direitos trabalhistas, por menos assédio moral, por mais serviços públicos, gratuitos e de qualidade.

Quando aparece um democrata nos moldes de Barack Obama, Bill Clinton ou Jimmy Carter, morrem de amores por eles, ignorando que a nação que buscaram tornou-se tão atrativa graças a gente como Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e Ronald Reagan. Em suma, correm do Lula daqui mas votam no Lula de lá.

Felizmente nas últimas eleições os americanos decidiram dar um basta e ir às urnas em peso. Deu Donald Trump, para desespero dos imigrantes. Por isso latinos choram, desfiando o mesmo rosário monótono que rezam partidos de esquerda daqui.

Pedem mais proteção do estado, mais direitos, mais benefícios, mais, mais e mais e tudo free, acusando os que discordam dessa marmota de xenófobos, racistas, elitistas, machistas e outras bobagens.

Algo familiar? Trata-se do mesmo discurso de esquerda proferido aos quatro ventos na América Latina. A mesma ladainha que esse povo tanto combateu por aqui e, cansado de dar murro em ponta de faca, desistiu e caiu fora.

André Paschoal é médico e escritor.

Pior: nas redes sociais essa gente não se cansa de exaltar os populistas de lá e de crucificar os daqui. “Fora Dilma”! “Fora Trump”! What kind of stupids are they? O que querem por lá, por aqui tem de sobra. Se estão infelizes, aconselho que refaçam as malas. Aqui tudo é grátis! Que tal voltar?

ESCOLHER SIM, DESDE QUE BOM PARA MIM

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Socialistas não gostam que as pessoas escolham porque elas podem não escolher o socialismo, disse uma vez a Dama de Ferro. Não me admiram as lamúrias da esquerda tupiniquim, que beiram o fricote, em face à nomeação do ministério de Temer. “Como assim? Nenhuma mulher? Nenhum negro?”.

Qualquer pessoa sensata não veria problema nisso, mas os socialistas… Ah! Os socialistas são seres sacrossantos, defensores dos pobres, das minorias, das mulheres. Como são bons! Como têm pureza no coração!

Lembro-me de um dos primeiros discursos de Lula, recém eleito, quando anunciou a troca do presidente da Petrobras. “Ele é graduado nos Estados Unidos. Fiquei até com vergonha do meu diploma de segundo grau. Só que eu preciso de uma pessoa de minha confiança no cargo”, disse o molusco com aquela língua burlesca entre os dentes.

Assim se sucedeu durante toda a era PT. Cargos e mais cargos desocupados por profissionais capacitados substituídos por pessoal alinhado ao partido. Deu no que deu. Os socialistas, como invariavelmente na história, quebraram mais um país.

Hoje, com um deficit público ultrapassando R$ 20 bilhões e mais de 11 milhões de brasileiros sem emprego, a preocupação da esquerda é que não tem ministra, só ministro. Para os socialistas, isso não pode. Precisa de mulher na equipe. Precisa de negro. Precisa de deficiente, homossexual, extraterrestre. Pior que não basta. Tem de compartilhar da mesma ideologia. Se não veste vermelho, não serve.

Ah! Mas e se não houver nenhuma mulher capacitada para tal cargo? Não importa. Tem-se de encaixar uma. Se não for possível, não faz mal. Cria-se uma pasta a ser assumida por alguém do sexo feminino e fim de papo. Assim se vai inflando o estado e aparelhando-o até que fique obeso e caro demais. Pelo andar da carruagem, parece que já ficou. Não por acaso, Michel Temer teve de reduzir o número de ministérios de 32 para 23.

Mas estado grande é apenas detalhe. Entendem como funciona? A escolha é livre, desde que se opte por uma mulher, um negro, uma lésbica, um hippie, um anão, um ex-favelado e desde que não se opte por um pastor, um branco de classe média, um militar, um médico. Socialistas não gostam de escolhas.

Queremos negros, desde que nenhum Ben Carson; queremos mulheres, desde que nenhuma Angela Merkel. Janaína Paschoal, então, é o próprio Lucifer encarnado (adoro quando militantes ateus falam em possessão demoníaca, mas coerência nunca foi prioridade no discurso dessa gente).

Sabem por que o ébrio chamou Joaquim Barbosa para o STF? Palavras de Lula: “preciso de um negro no supremo”. Foi por isso, não pelo excelente currículo do juiz. Tudo bem que o tiro pode ter saído pela culatra (pelo menos é o que parece), mas que foi mais uma das escolhas ideológicas do PT, isso foi.

O fato é que agora a esquerda perdeu a boquinha. Resta-lhe protestar. Reclama até da primeira-dama, imaginem se não torceria o nariz para os novos ministros. Marcela–a bela, recatada e do lar– foi escolhida. Pasmem, viúvas de Stalin: a escolha dos ministros é prerrogativa do presidente, assim como a da própria esposa.

Melhor ainda (isso os deixa roxos de ódio): Marcela Temer nasceu bela e escolheu o recato e os cuidados domésticos. Quis relacionar-se com um homem bem mais velho (que tem o seu charme, diga-se de passagem). A horda de foice e martelo, de tão maligna, recusa-se a admitir que o presidente é um homem atraente. Já ouvi isso de várias mulheres (das normais, não das esquerdopatas, claro). Apela para o “amor por interesse”. Mesmo se fosse! E se for? Trata-se de uma opção dos dois.

Mas socialistas não gostam de escolhas, a não ser que não se prefira o recato, muito menos os afazeres do lar. Bela eles até toleram, porém não muito. Beleza oprime. Precisa de uma feiosa em algum cargo. Graça Foster, por exemplo, caiu como uma luva. Dilma idem.

Agora sabemos por que chegamos ao fundo do poço. Os vermelhos, contudo, não se contentam. Querem que cavemos progressivamente, enterrando o país cada vez mais. Seguindo assim, sabemos bem aonde iremos parar: no outro hemisfério. Mais precisamente no Vietnã, no Camboja ou na Coreia do Norte.

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.