NÓS, O POVO.

 

 

“Todo o poder emana do povo”. Confesso jamais ter compreendido a frase primeira da nossa Constituição. Tudo o que vi, desde sua promulgação e até há pouco, não passava de conluios envolvendo bancos, grandes corporações e partidos políticos; de coligações partidárias eleitoreiras, pagas com cargos de confiança; de leis aprovadas a despeito da vontade popular; do Poder Legislativo comprado pelo Executivo sob a vista grossa do Judiciário, e da imprensa endossando o circo todo.

De repente, um parlamentar, inicialmente tímido, passou a atirar pedregulhos no chamado estamento burocrático. Mesmo sozinho, com brio e coragem peitava o sistema. Coincidentemente, as redes sociais atingiam o apogeu midiático. Postava-se e compartilhava-se de tudo: culinária a pornografia, política a entretenimento, filosofia a moda. Na época ainda não havia limitação no alcance das redes.

Aí nasceu Jair Bolsonaro, apelidado de “mito” pelos, cada vez mais numerosos, admiradores. Irreverente, acabou classificado como polêmico pelos colegas e pelos meios de comunicação. O mito não tinha papas na língua. Virou meme, super-herói, personagem de quadrinhos, tudo oriundo de uma mídia até então desconhecida e desprezada, composta por perfis pessoais e pequenas fanpages como a nossa Rua Direita.

Como todo outsider, Bolsonaro dava um tapa e tomava dez. Comprou briga com o poderoso governo socialista do PT, com os movimentos pró-aborto, os apologistas das drogas, os ativistas pró-desarmamento, os professores de esquerda. Ganhou, consequentemente, as pechas de machista, misógino, fascista, racista. O Stablishment reagia. Bolsonaro contra-atacava e crescia.

Comentários já pediam “Bolsonaro presidente”. Comentários de gente comum, pessoas como eu e você que, de início, a ordem ideológica expôs ao ridículo. A ideia, no entanto, ganhou corpo. Referências a ele ganharam maior alcance até atingir o topo das mais comentadas no Facebook, Twitter e afins. Criou-se a frase “é melhor Jair se acostumando”, de autoria desconhecida, como forma de provocação àqueles que têm rabo preso com o sistema.

A essa altura, o parlamentar já causava furor em cada aeroporto a que chegava nos 26 estados da Federação. Não se tratava de propaganda política artificialmente montada em estúdio, em que o candidato, carregado pelo povo, acena sorrindo. Aquilo era real. Bolsonaro é real!

Percebendo a curva ascendente do deputado, o sistema decidiu mudar a estratégia. Colocou-o na mídia convencional. Queria pô-lo para falar. Quem sabe assim ele assustaria as pessoas?

Erro crasso! O povo gostou! Pudera: falavam a mesma língua. Com frases fortes, ia ganhando corações e mentes. E não, não era como Lula. Lula é cria de marqueteiros. Comunica-se de maneira afetada, dizendo o que o povo quer ouvir. Bolsonaro não fala o que o povo quer escutar. Bolsonaro é o que o povo quer.

Enquanto o PT e correligionários apoiavam-se em militância paga, partidários do “mito” tiravam dinheiro dos próprios bolsos, confeccionavam camisas, criavam adesivos, erguiam outdoors. Enquanto terroristas do MST e desocupados da UNE gritavam “Lula guerreiro do povo brasileiro”, o verdadeiro povo bradava “eu vim de graça”. Bolsonaro é um fenômeno genuinamente popular.

Em quarenta e cinco anos de vida e dez como articulista político, nunca vi nada parecido. O candidato, que não compõe grandes coligações partidárias, que tem pouquíssimo tempo de televisão, que dispensou, por princípios, o fundo eleitoral e recusou, também por princípios, vultosas somas das mãos de empresários, que é crucificado pela imprensa e repelido pelos partidos políticos, mesmo assim, lidera as pesquisas.

O mito desabrocha do povo. Ele não é um político. Nem mesmo fala como tal. Bolsonaro é o médico, é o policial, é o gari, a cabeleireira, o advogado, o militar, o engenheiro, o mestre de obras, a bailarina, o futebolista, os bêbados do centro da cidade e os ascetas da igreja, é o pai, é a mãe, é o filho, o conselho dos avós e o respeito dos netos, é o miserável das palafitas e o pequeno empresário de classe média, é o pastor evangélico e o roqueiro dos anos 80. Todos juntos. A direita une o que a esquerda segregou. Devemos isso a Jair Bolsonaro.

Agora compreendo: sim, o poder emana do povo. Mas o povo não é um punhado de militantes, correligionários e bajuladores de casaca, pagos conforme a estirpe. O povo somos nós, os brasileiros.

Em cada metro quadrado deste solo existe alguém a enaltecer Jair Bolsonaro, em cada cozinha, em cada praia, em cada centro de compras, em cada lar, em cada hospital, em cada campo de futebol, em cada empresa, em cada favela, em cada canto desta imensa nação haverá sempre alguém disposto a defendê-lo de acusações infundadas, de alcunhas covardes, de rótulos absurdos, de arguições capciosas, de jogos de retórica, de sofismas de maldade, em cada igreja, em cada bar, em cada centilitro de oceano haverá um brasileiro disposto a brigar por ele, porque ele emana de nós. Nós, o povo.  Deus salve o mito!

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.

 

 

A SAÚDE NA UTI

IMG_0016Recebi tantas vezes a alcunha de pessimista que até me acostumei. Esses governos de esquerda deixam-me assim, fazer o quê? Infelizmente há tragédias anunciadas e o que se percebe na saúde brasileira é uma delas.

Que o governo do PT contraiu mais empréstimos do que poderia pagar, não é novidade. Há treze anos Lula e Dilma distribuíram benesses de toda sorte, que favoreceram desde gente muito pobre até grandes empresários. Dada a impossibilidade de pagar a conta, pedalaram até o limite.

Só que o limite chegou. O governo federal não tem mais verba para repassar aos estados e municípios. A saúde pública sentiu o baque. Só no ano passado, a União deixou de repassar 2,2 bilhões do Fundo Nacional de Saúde às prefeituras e estados.

De 2010 a 2015, o SUS desativou 13 mil leitos hospitalares. Cerca de 12 mil cirurgias foram suspensas em Minas Gerais no ano passado. No Paraná, no mesmo ano, cancelaram-se todos os mutirões de cirurgias eletivas. Em Manaus, três mil médicos da rede pública não recebem salários há três meses (situações semelhantes evidenciam-se n’outras localidades). Extinguiram-se os plantões de ortopedia nos pronto-atendimentos da capital amazonense e as cooperativas, que prestam serviços para o estado, reduziram os quadros em 10%. Há menos médicos, enfermeiros e técnicos trabalhando na rede pública.

O Rio de Janeiro, então, viveu há pouco a pior crise na saúde pública de sua história. O Hospital Getúlio Vargas fechou as portas. Muitas emergências fizeram o mesmo por falta de recursos. Milhares de fluminenses ou ficaram sem atendimento, ou tiveram de enfrentar filas quilométricas nos serviços que ainda funcionavam.

Não para por aí. Após um ano do “Mais Médicos”, quase a metade dos municípios contemplados pelo programa tinha quantidade menor de médicos do que quando chegaram os bolsistas, segundo o Tribunal de Contas da União. A explicação é simples: as prefeituras demitiram seus profissionais e empurraram a responsabilidade para o governo federal. Resultado (tremenda ironia!): menos médicos.

Até aí, nada de muito novo. A saúde pública no Brasil sempre foi sofrível. Resta, para os que podem, refugiar-se em um plano de saúde. Só que, com o encolhimento da indústria e o aumento do desemprego, os convênios passaram a perder clientes. Meio milhão de brasileiros ficou sem plano de saúde em 2015. Como a demanda diminuiu, os convênios passaram a descredenciar em massa profissionais e clínicas.

Seguia-se a lógica do mercado até aparecer a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) com novas regulamentações, obrigando os convênios a substituir clínicas e hospitais descredenciados por outros equivalentes. Simples, não é mesmo? Basta uma lei. Sem poder “demitir”, restou aos planos de saúde aumentar preços. Ato continuo, a ANS chegou para simplificar as coisas novamente, com uma conduta socialista a la Hugo Chávez: fixou reajuste máximo anual aos planos de saúde individuais em uma taxa de 13,55%

Ora, qualquer um que conheça rudimentos de economia sabe que, ao se estipular um preço máximo, cria-se escassez. Com a saúde não podia ser diferente. Os planos tornam-se cada vez mais raros e mais caros, principalmente os individuais. Já os “coletivos” (aqueles oferecidos pelas empresas a funcionários e dependentes) não sofreram tanto, porque têm reajustes negociados bilateralmente, por meio de contrato, sem passar pelo regimento da ANS. Não é por acaso que, dos 50 milhões de beneficiários de planos de saúde, apenas 10 milhões sejam individuais.

Mas a indústria, como dissemos, também vem contraindo-se. Só em março perderam-se 118 mil vagas formais de emprego. A média de desemprego em 2015 foi de 8,5% e a previsão para 2016 é de 10%, segundo o PNAD/IBGE. Só em Manaus, cidade onde moro, mais de 15 mil vagas no Distrito Industrial viraram fumaça em 2015. Menos funcionários na indústria, menos usuários para os planos de saúde.

Triste realidade! Temos o segundo maior mercado de planos de saúde do mundo, mas não temos o segundo maior PIB. Conclusão: empresas e pessoas físicas não têm conseguido arcar com os custos cada vez mais altos dos convênios, por isso desistem de contratá-los. As prestadoras de saúde vêm falindo. Aconteceu, por exemplo, com a UNIMED paulistana.

Desenha-se a desgraça. Míngua a saúde privada. Quem não tem convênio vai para onde? Para o SUS. Mas… Opa! A rede pública, além de poucos recursos, teve os quadros reduzidos. Menos profissionais terão de assistir mais doentes com cada vez menos recursos. A não ser que tenhamos, por intervenção divina, uma epidemia de boa saúde neste país, prevejo um desastre sem precedentes. Deus nos proteja!

André Paschoal é médico e escritor.
André Paschoal é médico e escritor.